sexta-feira, 17 de maio de 2013

Hotmail Memories



        
        AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA MEXEM NOS CONTROLES, ALTERAM ARQUIVOS


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DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO que está ATUANDO NA internet ou  INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO


    Hot mail Memories

                                    Eliane Colchete

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     17/05

     (com alguns textos que elaborei anteriormente); acréscimos em 18/05



                Li o  "cool memories” de Baudrillard. Ele falou sobre o Rio de Janeiro como uma cidade absolutamente nojenta, de multidões sem noção de subjetividade, todos grudantes desejosos de serem uma só nojenta cloaca, etc. Suas expressões são aterradoras. Vejamos se podemos gostar disso (copio aqui as suas palavras do volume III):

             "Copacabana. Milhares de corpos em toda parte. Na realidade, um único corpo, imensa massa de carne ramificada, todos os sexos confundidos. Um único pólipo humano expandido, impudico, um único organismo onde todos tem a mesma cumplicidade dos espermatozoides no fluxo seminal. De algum modo, a indiferença da cidade e da praia leva a cena primitiva diretamente à praça pública. O ato sexual é permanente, mas não no sentido do erotismo nórdico: ele está na promiscuidade epidérmica, na confusão dos corpos, dos lábios, das bundas, das ancas - um único ser fractal disseminado sob a membrana do sol.
        Esse hiperorganismo humano faz pensar no outro imenso indivíduo orgânico, o maior do mundo, no Canadá, feito de 45.000 álamos, na confusão de suas raízes, todos participando do mesmo caminho telúrico- a floresta constituindo um único ser vegetal. Os corpos brasileiros constituem do mesmo modo uma espécie de ser único, vivos da mesma vida, penetrados pelos mesmos fluídos, vibrando pelas mesmas paixões. Que estatuto social ou político pode haver para um ser dessa ordem?"

      Nenhum ou a ditadura fascista oficializada ou não pela instituições de que essa ameba gigante não poderia sequer diferenciar-se como o corpo da letra, a resposta é evidente.

                A seguir tornamos à nossa comparação com o Canadá. Baudrillard informa de uma viagem diagonal "da nevasca de Montreal à canícula do Rio" assim como "das cidades subterrâneas concebidas para resistir aos seis meses de inverno às artérias fervilhantes de corpos nus e tráfego insensato"  ou ainda "do conforto formal e moral à confusão calorosa e delirante", de um "espaço consensual e climatizado ao espaço sensual e tropical", e principalmente "da diferença humana, feita de tolerância e multicultura, à intolerância animal, feita de violência e desenvoltura".

   

              
         Falou Bradrillard nestes termos sobre o Rio que seria o dos anos dois mil, e depois falou também sobre a "Eco" de noventa e dois, motejando sobre que muitos dólares viriam para a cidade mas apenas para serem partilhados pelo grupinho dos corruptos, não para o que estavam destinados, o investimento social.


               Afora o problema da corrupção, a mentalidade-cloaca realmente está constante nesta cidade em que ora escrevo, mas eu quero registrar aqui que não foi esse o país que eu conheci antes, isto é, não estava assim a cidade antes do neoliberalismo econômico ("Globalização") vigente desde FHC na transição aos dois mil. Ou seja, o que o europeu pensa que é primitivo na verdade corresponde ao que o capitalismo internacional fez contra o desenvolvimento autônomo local.
              Na minha infância e adolescência, entre os anos setenta e noventa (sou de 1964), havia aguda consciência de subjetividade, ou ao menos havia nos ambientes que eu frequentei. O que existia como devassa era a violência da ditadura, não refletindo de modo algum a mentalidade da população esclarecida e urbanizada.
               A mera sugestão de que poderia um dia existir computador pessoal  sem garantia de não estar infectado por espiões indetectáveis, seria monstruosa.
             Não houve até agora ditadura pior do que essa da mídia informática – mas há diplomado neste país globalizado, totalmente reduzido para servir à disseminação da Microsoft e demais empresas multinacionais e de periféricos, para dizer que isso é a coisa boa, porque assim a pessoa espionada está assistida pela sociedade.
                 Coisa boa da qual porém nesse momento não se lembram de dizer que não tem rosto, que não é “a” sociedade mas sabe-se lá quem e sabe-se lá para que objetivos, que não tem sobretudo licença alguma da pessoa que comprou e usa o computador pessoal, que não podem sequer ser identificados, etc.

      O discurso dessa gente é a coisa mais nojenta que se poderia ter aventado – tanto quanto a própria prática da espionagem, mas sabemos que não poderia ser controlada já a partir do fato de que a microsoft não é controlável pelo governo ou pelas instâncias de representação da verdadeira sociedade.

          Baudrillard em Cool Memories está criticando acerbamente a midiatização-informática, mas ele não chega a tocar nesse assunto da espionagem que tanto nos aflige. Fala apenas que essa que é a objetificação das mentes e alienação das liberdades do ponto de vista da mera auto-compreensão de si como sujeito independente, dotado de direitos civis igualmente projetados em função dessa independência.


        O que seria verdadeira sociedade? Ora, nada mais que a legislação representativa dos direitos e deveres prescritos de todas as pessoas que existem atualmente como cidadãs de um país.
         Segundo o princípio de toda jurisprudência, a ninguém é dado desconhecer a lei.


         Assim esse discurso que pretende sancionar o spy ware silencia sobre o fato de que o espionado não pode sequer tomar consciência de quem o espiona, nem pode espionar por sua vez. “Todos” tem direito sobre ele, mas ele não tem direito nem sobre si mesmo, baldados são seus protestos no sentido de fazer valer que pela lei a espionagem do computador pessoal é invasão de propriedade privada, invasão ilegal da privacidade – e obviamente ninguém sequer lhe pediu permissão para espionar.

        

             Que tipo de sensação habitará um parasita de computadores alheios? O computador, mas antes já parasitavam espionando de outros modos – agora espionam também o modo de se expressar, de escrever. A mola da ação é a mesma. Transferir o dito para atribuir a eles mesmos, como se a biografia da pessoa ou o que a pessoa pensa fossem eles que viveram ou eles que pensaram.
                Claro, há a questão do lucro, isso é só mais um tipo de roubo nojentamente cínico igual a qualquer outro.
                Mas há gente que faz sites na internet com nomes de artistas ou de outras pessoas. Que sensação haverá numa coisa tão cretina? Alhear-se, como renunciar-se a si mesmo, etc.


            Há crianças que gostariam de ser outras crianças, já ouvimos falar nisso. Hoje em dia os loucos não pensam mais que são Napoleão, mas a filha da apresentadora famosa da tv.


              O que é mais nojento neste país "globalizado", infestado de seitas fascistas religiosas maketizadas, é sua cumplicidade estrutural a todo tipo de falcatrua nesse sentido do spy ware ou de tudo o que signifique invasão do privado.
             É por isso que consideram a sério que a pena de morte contra assassinos, até mesmo assassinos brutais, obviamente exceto em legítima defesa da própria vida, é algo contrário ao que chamam a identidade do homem cordial.


           Assim a bandidinha vai para trás das grades depois de ter se livrado de alguém que vivia apenas a sua vida. Depois, cumpre a pena. Aí é solta para se gabar que substituiu eficazmente a trouxa que se encontrava no seu caminho de glória.
            Se nada mais acontece, é porque a bandidinha está sendo aplaudida pelo que fez.            
          Secreta ou ostensivamente, o poderio fascista local admira quem “substitui” como o corajoso – o que teve coragem o bastante para fazer o que quis.
           Não só isso, mas ostensivamente açula para que o faça, etc.
           Há gente tão cínica que eu não me espantaria se os visse defender publicamente o direito de espionar o que se escreve no computador pessoal fora da internet, como se as pessoas devessem por algum imperativo moral estar totalmente disponibilizadas na sua vida íntima para o público no interesse da tecnologia, ou da consciência "pública" -nada mais que a deles mesmos -  etc.



            Mas quem são os agentes de instituições civis que garantiriam que pudéssemos provar seja que o computador não tem ou que tem espiões embutidos?


            Aqui só faz a propaganda do computador e da tecnologia que é imposta como se todos tivessem a obrigação de estar por ela assimilado, como se a vida de cada pessoa aqui estivesse agora valendo apenas em função de ser consumidora da tecnologia multinacional microsoft e etc., que emprega e assim alimenta os demais – como se fôssemos escravos, portanto.



               O nojento na espionagem do computador ou nos demais procedimentos de transferência da mera informação biográfica para parecer protagonizada por outra pessoa, é que essa outra pessoa é produzida para parecer justamente o contrário, isto é, para testemunhar outros fatos que não tem nada haver com a biografia real, juntamente com o que tem, e assim produzir uma imagem totalmente falsa do passado.


           Especialmente o passado recente, entre setenta e oitenta está assim totalmente distorcido ou então censurada à mente atual. Se falamos dos anos setenta, projetam roupas e costumes dos anos trinta -  porque essa é a imagem distorcida que estão disseminando na mídia e em todo lugar sobre o protagonista de fatos dos anos setenta.

          Ou seja, estão forjando uma imagem do brasileiro típico que não existe na realidade senão como um punhado de fascistas "filhos da puta". Seria um primitivo idiota cuja imagem de inteligência é a capacidade de estelionato e tirania sobre os cidadãos honestos, primitivos desses que só existem na mentalidade do europeu primeiro funcionalista, os quais não fazem nem podiam fazer mais nada de progressista além do pobre paternalizado pela ditadura Vargas – nem chega o protótipo generalizado ao próprio Vargas político pós-estado novo.

          A redemocratização não resultou em nenhuma rua ou avenida importante com o nome João Goulart, o que prova que a redemocratização é falsa. Goulart é hoje desconhecido pelo povo – foi este presidente o político com maior número de votantes da história do país, verdadeiro representante da democracia local, derrubado pela Cia golpista (ler René Dreyfuss e Claude Julien). A artéria principal da cidade do Rio é a “presidente vargas”.


            O medium da ditadura local desde Vargas é a tecnologia – assim, a internet anunciou com grande jactância a manchete de que o carnaval do Rio desse ano foi o show da tecnologia – não existe, portanto, mais "carnaval", cuja definição é ser uma festa popular brasileira. Foi reduzido a fórmula das elites importadoras da técnica, e consequentemente a invenção dos tecnólogos norte-americanos ou europeus.
              Não há nada que se faça que não seja reduzido a invenção dos artistas, intelectuais e/ou tecnólogos norte-americanos ou europeus. O orgulho das elites corruptas daqui é obter e ver obtida tal redução. Tudo que pode ser protagonizado localmente deve ser redutível a cópia dos artistas, intelectuais e/ou tecnólogos norte-americanos ou europeus.


         Também na russia esses grupinhos corruptos de verbas internacionais para o desenvolvimento social estavam atuando nos noventa, informa Baudrillard, desviando as bolsas destinadas aos acidentados de chernobyl para mocinhas que as compravam no mercado negro. Isso, claro, depois da obsolescência da União Soviética. 

        E prossegue Baudrillard sua ojeriza aos brasileiros  - agora já em "cool memories" volume IV - junto ao seu desancar da democracia para defender a "violência" da "vontade de poder":

               "Nos caldos e nas panelas de barro da cozinha baiana sempre se tem a impressão de se ver uma decocção de missionário, tanto a afeição brasileira parece ser de ordem comestível e canibal, ela que nos elogia e acaricia como uma presa amorosa. Parece que se pode ler sempre em seus olhos: Como era gostoso o meu francês!".

               Além disso ele diz que os brasileiros não falam, rugem; e que estão sempre nus interiormente.

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         Todos sabem que não há grupinhos mafiosos se não com apoio do capital central e instituições governamentais correlatas dos países centrais a fim de atuarem localmente como força de repressão às instituições de organização política da população esclarecida.
       Isso está até no Puzzo, aquele autor de O Chefão – sobre como funcionam as coisas na itália.
          Neste outro livro, é possível encontrar num jantar lado a lado como fellows comrades o chefe da segurança pública e o chefe da família mais importante da máfia regional.
          Eles se reúnem para resolver sobre o destino de um bandido famoso, tendo por convidado o chefe da família mais importante da máfia internacional, o qual pensa-se poder solucionar o problema. Eles planejam levar o bandido para os estados unidos, e esse chefe está indo para lá. Mas o bandido não consegue escapar de um outro cerco - o dos chefes de famílias menores, etc. O bandido,  que é um heroicizado pelo povo, não chega a atravessar a fronteira.
                  A narrativa de Puzzo começa com um flash-back da estabilização da rede mafiosa assim como estava àquela altura na Itália, processo histórico que dependera da rede ter se revelado útil aos objetivos governamentais e internacionais de repressão às agremiações socialistas e democráticas. Depois tendo-as a rede mafiosa substituído enquanto força de organização civil, como força de mero controle/tirania “tradicional” sobre a massa popular, enquanto o mesmo papel era atribuído concomitantemente aos partidos políticos e instituições de governo tendo por alvo do controle as elites, mas é claro, estas com participação nos lucros.

 
                     Assim, por um motivo ou por outro, não podemos pensar hoje em dia em nosso passado, ou em nossa linguagem, ou em nada mais que não seja o computador pessoal itself.


             II )



            Obviamente, eu não aprovo Françoise Dolto. O mais odioso na mentalidade invasiva intrusiva ditatorial, é que tem sido veiculada como natureza psíquica feminina.
           E nos dizem que uma mãe não poderia pensar a legalidade das relações porque na sua relação com as crianças não poderia haver reciprocidade – elas tem que bater para serem obedecidas. Além de que isso é a porcaria pedagógica da mentalidade reacionária, e não o ser em si da maternidade qualquer, há o fato de que se essa mãe seviciar sua criança vai parar na cadeia se for o caso de um país com qualquer mínimo de nível constitucional.
            Portanto nenhum pai ou mãe é onipotente só por ser pai ou mãe.
            O pior foi ouvir na faculdade uma professora defender a tese de que a dominação é da natureza humana porque pais e mães tem que dominar seus filhos. Ouvir isso – numa faculdade! Mas só se eu fosse ingênua me espantaria. Nunca ouvi maiores nojentices que na faculdade. Até mesmo já ouvi gente lá defendendo a sério a volta da monarquia dos portugueses.

       

          Os deuses gregos já tinham uma boa teoria sobre o desejo. Você pede x e eles sempre te darão y porque eles entendem que x=y, e quem decide é eles e você apenas deseja, etc., e o que é o desejo senão aquilo que é somente o que ele é e se esgota em si mesmíssemo tão somente, etc.? Assim as coisas deviam ou não deviam ter alguma a mais dignidade do que somente isso, (um) desejo? Eles entendem isso, assim, como se. Eles tem ou não tem culpa? Eles sempre tendem para um certo desvio, supõe você. Todas as estórias são assim. Como se.
                As sibilas ficam loucas adespois, porque se esqueceram da Juventude. Elas só pensaram na Eternidade. Eis como são as sibilas, os deuses gregos, ou o desejo?
            Em todo caso, geralmente o seu desejo definia x como o contrário de y, era isso. Mas você não o esclareceu antes, Como Se você pudesse ter pensado que alguém poderia pensar ao inverso ou outra coisa.

            O problema é que o desejo em si não tinha sentido além do pronunciamento, mas você esquecia a linguagem e pensava que as coisas em si...


               Por exemplo, há o gênero de discurso “entregue-se”,  pelo que se exorta que o sujeito bandido se entregue a fim de ter a vida poupada então o sujeito bandido se entrega conforme o contrato da palavra e assim que ele põe o nariz pra fora do esconderijo leva um tiro ou uma fuzilaria nas fuças. O corpo que cai. Os tiros são fuzilados sem a menor palavra. Não se ouve uma exclamação do tipo “got it!” por parte dos fuzileiros. Eles apenas avistam e atiram. Em silêncio. Exceto pelo barulho dos tiros.

Poesia feminista
      God of the bréesil que haverá someday!
      As mulheres (sic) falam aos homens que querem escutá-las e aos homens que querem fazê-las calar e aos homens que não querem ouvi-las & consigo mesmas (?).
     I don't need a dress for to know i'm something else than a man.
      O maldito bruzil merece que a gente queime as saias nas praças públicas dele, dado que insiste
    em que devemos tornar a usá-las. They could Never put Me on dresses.

     Meu pai era português de Aveiro com mentalidade popular socialista-democrática norte-americana de valorização do trabalho  - porque morou nos States dez anos quando jovem e nunca foi colonizador,
          ele era pequeno comerciante honesto, homem do povo e veio para aqui after States como podia ter ido para qualquer outro lugar.


     Portanto, o meu linguajar nacional pode ser quaisquer desses

             
              O bréesil precisa de uma língua, todos são concordes nisso. Mas até agora cada um dos crentes no futuro bréesil só pode contribuir com a sua própria, idiossincrática. Se nós adotássemos algumas das idiossincrasias precedentes teríamos que decorá-las porque via de regra elas não sistematizavam-Se.
               Por prova da minha boa vontade designo a Isto um Neodesvairismo.
 
                                    

     III )

            
       Cl. Julien e Rene Dreyfuss são sociólogos que produziram dossiês sobre os processos de corrupção dos governos representativos do terceiro mundo pela Cia a partir dos anos cinquenta. Seus títulos de leitura obrigatória para qualquer palavra sensata a propósito do estado de coisas histórico da nossa atualidade são respectivamente "L'empire americaine" e "1964: A conquista do Estado".
           Um complemento interessante seria o livro de Romanova "A  expansão econômica dos Estados Unidos na América Latina", sobre as políticas corruptas de exportação de capitais, mas estas sendo feitas às claras, por acordos oficiais.       
           "Radiografia de um modelo", de Werneck Sodré, examina essa mesma expansão, mas já referenciando as estratégias das multinacionais da época da ditadura militar.
          Li recentemente "A ditadura dos cartéis", de Kurt Rudolf Mirow. Considero bem importante as informações, dessa mesma época ainda, mas ilustrando de um modo contundente as formas de controle sobre a sociedade asseguradas pelo capitalismo corporativo.
          Contudo, Mirow pareceu-me conduzir a uma crença que considero falaciosa, a de que os governos dos países centrais são estruturalmente independentes e até contrários aos grupos que sistematizam as estratégias dos carteis.
          O episódio relatado em que a própria marinha norte-americana teve que se dobrar à imposição de um preço exorbitante feita por um cartel para conseguir comprar materiais necessários me pareceu um tanto ingênuo. Aqui entre nós, contratos inflacionados por corrupção de preferências em nível de compras governamentais é uma constante desde tempos recuados, tendo sido típico da ditadura militar.
       O termo "cartel" funciona como metonímia para os conglomerados financeiros que hoje em dia são as "multinacionais" que protagonizam, mas o livro de Mirow já fala precisamente das maiores hoje nossas conhecidas.
         Além dos títulos citados, mais dois são referenciais básico. A evolução do capitalismo, de Maurice Dobb, e o muito popular "a história da riqueza do homem", de Leo Huberman. O livro de Dobb tem numerosas edições sucessivas, provando-se bastante conhecido do público, mas o de Huberman tem sido arrolado na conta de "beat seller" com número impressionante de vendas. É de fato leitura agradável.
          Todos os títulos referenciados estão traduzidos em português, exceto Cl. Julien. Os que mencionei antes de Dobb e Huberman versam sobre o cenário recente, enquanto estes dois produziram "história efetiva" do capitalismo desde a reativação do comércio pós-feudal. Isto é, lidam com fatos documentados, não com classificações ou tipologias. Mas o resultado é surpreendente porque esses fatos comezinhos não confirmam muitas das ilações que sustentam tais "grandes teorias" ou "grandes relatos".


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           Se a leitura de todos os autores referenciados é o que importa ao avivamento da  produção de interpretações atualizadas, aqui registro o que me parece o básico da transformação na perspectiva histórica.
          a) O capitalismo é uma profusão de estratégia de exploração econômica, e não uma forma de pensamento social ou político. Qualquer regime político, democracia, monarquia constitucional, fascismo, absolutismo, ou mesmo aristocracia, prova-se poder conviver com o capitalismo.
         b) a exploração econômica capitalística não é feita por qualquer iniciativa com vistas a lucros, mas por corporações informais, isto é, por associações de elites cujos negócios são em gigantesca escala (internacional/intercontinental), e que por essa característica contam com um monopólio.
            Na história há dois tipos de monopólios capitalísticos. O fornecido pelo rei absolutista, durante o período colonial-escravista; e o obtido por "cartelização", na era industrial.
        c) A empresa capitalista não é "racional-legal", mas opera caracteristicamente por meios ilegais e lesivos a terceiros em particular ou à sociedade legal, em geral. O monopólio resulta assim em poder para articular e financiar operações ilegais ou para-legais.
         d) As relações entre obtenção de monopólio e manutenção do poder para-legal implicam o estudo das relações entre a elite do capital internacional e os governos. Estas relações não são definíveis a priori, além dos estudos de caso local.
           Algumas vezes a própria atuação da grande empresa resulta na sua operação como aparelho disciplinar em vez das instituições públicas - como em algumas cidades dos Eua e Inglaterra estudadas por Dobb e Huberman.
            e) Invariavelmente o monopólio da era industrial implica controle coercitivo sobre a sociedade. As relações entre mudança social, mudanças culturais e poder capital-monopolístico não são definíveis a priori, além dos estudos situados.
              Sendo assim o capitalismo está redefinido como uma assimetria internacional do capital, onde colonialismo e imperialismo são intrínsecos ao exercício monopolístico, e não meros efeitos derivados. O estudo das relações entre governo e monopólios capitalísticos recobre um aspecto autônomo quando se trata do tema da exploração - isto é, de disponibilização como tal - da "margem" ou "terceiro mundo".

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           Cotejado aos títulos antes citados, o de Mirow pareceu falhar somente nisso pelo que  não esclarece o que sociologicamente é o fenômeno crucial, ou seja, a composição descentrada dos governos dos países centrais, especialmente Estados Unidos, e a incorporação estrutural entre governo e capitalismo central  quando se trata da política externa de dominação imperialista.
        Se é assim, os grupos organizados da população esclarecida contra a dominação é que se tornam importantes a qualquer rumo politizado da ação consequente. As antigas dicotomias de bom e mal onde por um lado há trabalhadores e por outro empregadores, ou as macro-teorias que definem tudo na vida apenas em função da dominação econômica, não se revelam aplicáveis a um cenário em que as definições se esboroam ante a complexidade.
     Pois, devemos lembrar que atualmente a mídia e informática funcionam como megamáquinas centralizadoras da dominação em nível internacional. Isso não implica que não exista imprensa e produção artística independentes e até, pelo contrário, relacionadas aos grupos organizados da população esclarecida, mas parece ser o mais importante fenômeno de disseminação fascista, portanto substitutivo da heterogeneidade da cultura popular em nível de massas, que demarca a atualidade geopolítica do "conflito Norte/Sul" que veio a re-conceituar o capitalismo em si mesmo.
          A superação de toda mentalidade reducionista do humano, e esse conceito ampliado de capitalismo internacional, emergem agora como evidências mas de modo que permitem rever a história e a cultura, especialmente as do período contemporâneo, em função do que estão permitindo compreender.

                                        
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              Os países do terceiro mundo estão impossibilitados de atingir o patamar da Reserva do Saber tecnológico que se tornou monopólio dos países centrais e que define o seu estatuto "central" ("Norte"). Por isso não há mais conceito de país em desenvolvimento, só há a cisão de desenvolvido e subdesenvolvido, como também pelo limite ecológico da demanda energética.
           Não é novidade para ninguém as cifras que desmentem qualquer versão de ganho econômico pelas classes médias na margem a partir das ditaduras e globalização. Pelo contrário, elas revelam que a desigualdade da renda entre Norte e Sul aumentou em muito.

 
           A meu ver os países do terceiro mundo  poderiam ainda assim se tornar importantes produtores de saber na atualidade se desenvolvessem pesquisas relevantes em ciências humanas empíricas (pesquisa de campo, pesquisa dos fenômenos efetivos). Para essa pesquisa eles tem todo o campo de aplicação não só requerível, como altamente necessário ao mundo, em vista dos questionamentos que estão em todo o mundo se realizando. Não sendo além do mais pesquisa impossivelmente onerosa do ponto de vista do investimento, pelo contrário.
         Mas é este o limite nestes países do terceiro mundo de economia dominada pelo capital central, posto que se o desenvolvimento está agora sendo avaliado pelo idh como desenvolvimento humano (índices populacionais de de alfabetização, saúde, moradia, etc.) , a Reserva de Saber não é uma rubrica mensurável, e no entanto ela decorre entre outros fatores, da liberdade do investimento na pesquisa e inexistência de fronteiras internas ao letramento da população.
          Essa inexistência de fronteiras internas de acesso à cultura, é o  que o terceiro mundo estruturalmente tem impossibilitado pelo fato de ser do mesmo modo estrutural “complementar” à corrida tecnológica protagonizada pelos países centrais, e desde a Globalização isso implicar muito mais radicalmente a Reserva de Saber.
       Fica deste modo claro que a pretensa  "homogeneidade" ou unidade no país do terceiro mundo ou no Rio de Janeiro é um mito composto pelas comunicações de massa, abstraindo-se do representável como uno a grande maioria heterogênea que não cabe na hierarquia de classe média & superior.
           A zona sul do Rio, onde se localizam as praias de atração turística, assim como os circuitos culturais e em geral todo o sistema urbanizante-modernizante estão vedados a essa maioria que por outro lado, tem sido objeto da lavagem cerebral das seitas religiosas fascistas marketizadas.
          Assim creio que as sociedades do terceiro mundo precisariam ter a concepção relevante de sua população heterogênea como sua geo-egoidade, para poder ter formado o objeto de investimento do seu saber de si e em função de que suas políticas de saber ou sociais se tornariam realmente pertinentes, ou seja, ainda que não como cópia possível da tecnologia central.

            Inversamente, o que tem acontecido é que é nos países de margem, perseguindo a distopia do desenvolvimento tecnológico, recalcam as humanities e a heterogeneidade populacional para forçar de modo fascista todo devir local a adaptar-se a uma receita copiada de assimilação teórica e/ou tecnológica. 
            Ora, o paradoxo aqui é que essas "receitas", que assim reduzem o potencial da própria teoria ocidental, na verdade são hauridas de teorias construídas necessariamente sobre uma interpretação do "outro" em relação a que o Ocidente se define para si mesmo como Sujeito.
            Assim, a pesquisa empírica da realidade da margem em ampla escala deveria ser o parâmetro da validez desses "grandes relatos" inferiorizantes do "outro", e portanto o que poderia nos livrar dessas classificações abusivas, pois feitas sem conhecimento real da alteridade/heterogeneidade.
           Toda disposição étnico-cultural de uma "margem" é pré-requisito desses grandes relatos como também recalcantes de toda alteridade pensável: gênero sexual,  classe, cultura, etc.

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            Tenho repetidas vezes repetido a citação de Thabet, um ideólogo do desenvolvimento no terceiro mundo que nos anos oitenta instava por uma campanha midiática que ridicularizasse o que designou personalidade sonhadora e pendores literários, a fim de que toda a juventude – ainda por cima como parâmetro etário de integração social – fosse forçada a se tornar “objetivo e criterioso” como ele pensava que todo cientista natural devia ser.
        Tenho também feito notar o quanto essa é uma visão estereotipada do cientista, posto que não cabendo em várias personalidades importantes na ciência, à exemplo de Feynman, Feyerabend ou Prigogine, na verdade não corresponde a qualquer correlação validável. Pois não existe ponte direta entre produção – conceitual ou estética - e personalidade subjetiva.
          Recentemente, inclusive, soube de uma revista (ou jornal?) que foi processado pela associação dos psicólogos, por ter feito análise da personalidade de pessoas famosas a partir do que seriam seus desenhos. O processo foi movido para evitar que a psicologia local fosse detratada por autorizar essa associação como "científica" - conforme o periódico apregoava.
          Há muitos a prioris da realização de uma produção estética ou profissional, que nada tem a ver com pessoalidade –  e nesse caso do desenho, por exemplo, a fase de coordenação devido a idade, o conhecimento técnico, disposições fisiológicas como miopia, etc. Uma pessoa tímida pode se compensar escrevendo num estilo arrojado, etc.
         Mas a campanha que foi recentemente desencadeada na mídia local contra a liberdade em literatura, para confinar toda produção literária num estilo "jornalístico" extremamente simplista, além de algo absurdo por si só, ilustra bem o fato de que a mentalidade tecno-desenvolvimentista de Thabet não é coisa do século passado, anterior à mudança do planisfério.

            Creio que numa via contrária à de Thabet, o artista plástico Antonin Tapiez foi feliz ao definir o subdesenvolvimento teórico-estético em termos da cópia local de uma escola ou tendência como única pela qual se passa a julgar tudo mais, enquanto o Centro o que faz é produzi-la entre muitas e principalmente a partir da heterogeneidade daquilo que realmente os artistas estão realizando. Não o oposto, como se os artistas estivessem confinados ao imperativo da tendência única.
          Mas Tapiez falava numa época "pop" em que o problema da subsunção midiática do estético ainda não era tão grave como hoje em dia.


           A grande necessidade de pesquisa empírica sobre a realidade heterogênea da margem ("terceiro mundo") como algo que está simplesmente anulado ao horizonte das políticas científica e social local é algo impressionante registrar.
          As poucas pesquisas que existem, feitas no horizonte da resistência, nos setenta e oitenta,  geralmente selecionavam objetos preconcebidos por uma orientação desenvolvimentista que hoje verificamos ultrapassada. Ainda que mesmo assim algumas  possam conservar-se de valor - como de Ecleia Bosi, Rosemary Muraro e C. R. Winckler,
 dentre as que conheço.
        Não obstante o seu valor informativo, o  comum da orientação acadêmica foi reduzir os dados sociais à causalidade econômica, reduzindo  a visibilidade local aos a prioris sistêmicos de teorias projetadas para a realidade europeia. Por exemplo, pesquisar comportamentos ou organizações da classe operária como se fosse realmente representativa do modus vivendi, mas na realidade sendo minoritária. Por outro lado, essas são pesquisas honestas, enquanto o mais comum é a falsificação estatística ou oclusão de dados – como registrou Werneck Sodré a propósito ("História da burguesia brasileira").

         Informações sobre a heterogeneidade local e sobretudo, a propósito dos processos de favelamento, modos de vida nas favelas, e as informações que seriam obviamente importantíssimo obter sobre isso que poderíamos designar a divisão da favela no ambiente urbano devido ao incremento gigantesco do número de pessoas nessa condição a partir dos anos noventa, após o primeiro grande salto nesse mesmo rumo desde os setenta, seriam o básico de qualquer concepção minimamente coerente da nacionalidade, o que efetivamente não existe.
        Está sendo forjada uma unidade fictícia-fascista a partir da recepção comunizada dos aparelhos de comunicação em massa dirigidos para promover fórmulas unitárias de repetição de palavras de ordem.
       A favela  massivamente habitada, está do outro lado desse muro de silêncio absoluto sobre aquilo que a televisão não identifica pensável. Pode habitar somente o noticiário dos jornais como correlato de informes sobre crimes.

          A mentalidade disseminada é nada menos que delirante com total rejeição de qualquer traço do objeto real. A mídia está obviamente transformada nesse aparelho superinflacionado, requisitado como tal desde a implementação do neoliberalismo econômico, enquanto até então a resistência à ditadura implicava o que esta objetivara desmantelar, o alcançado nível de nacionalidade politicamente consequente, de modo que a produção teórica local na área de humanities, ainda que com os limites da época, tão dominada pelos estruturalismos, marxismos e existencialismos, era bastante circulada pelo público, de qualidade e intensa.

           O arejamento político da mídia em termos da veiculação de heterogeneidade de opiniões, objetivos e perspectivas, como agora tem se apresentado em alguns casos, é um dos requisitos de alguma melhoria do estado de coisas presente.      
          Mas a questão que estou enfatizando é a configuração inteiramente nova da partição de tarefas na cultura na Globalização, de modo que os canais de produção de saber estão vedados ao acesso considerável comum que se tornou, pelo contrário, monopólio dessa linguagem dirigida compactada como das comunicação de massas.

            Coleções de livros compostos por artigos referenciais ao cenário internacional em humanities, como as que publicava a Zahar sob supervisão de intelectuais brasileiros conhecidos pelas suas próprias publicações em cada disciplina; a ênfase curricular na delimitação da área de humanities como irredutível à mentalidade objetiva das ciências naturais e de ténicas; a tradução de livros de divulgação científica em humanities; são traços conspícuos da prática vigente que se interrompeu desde os anos noventa até agora.

           Nas livrarias há inundação de títulos velhos que são repetidamente reeditados apenas como um cânon fechado de uma cultura ao mesmo tempo clássica e avant-garde, como Lacan, Foucault e Deleuze, ou seja, sem janela para o pós-modernismo que investe na heterogeneidade e pesquisa de dados empíricos.
        Por outro lado há investimento maciço em títulos de divertimento ou de ficção voltadas para um imaginário e perseguido obsesivamente tipo médio cujo ideal subjacente é discursivizado como suposto aparecer, pela mídia. Tal tipo é o que por outro lado, é ficcionalizado com o horizonte desenvolvimentista, portanto não corresponde ao que existe realmente na hierarquia das classes.

           Tal tipo ficcionlizado não suporta uma frase com mais de quatro palavras, e nenhuma concordância que não "a é b", além disso ele nunca ouviu falar de nada mais do que pode ser informado explicitamente em cada uma dessas frases com palavras que não só ele mas um tipo ainda mais imaginado e perseguido que é o absolutamente todo o mundo em geral pode compreender sem esforço.

            Tudo o mais tem sido objeto de ojeriza por parte de campanhas – inclusive em faculdades de letras – contra o preconceito de “metidos” a conhecer os “clássicos” tais como José de Alencar ou Machado de Assis ou qualquer um que não esteja no rol dos comentários dos jornais ser aceitável oferecer às crianças e adolescentes na escola.

              Sem pesquisa confiável da realidade efetiva local não temos qualquer parâmetro dela, obviamente, mas isso é o que menos se tem compreendido. Pelo fato de que para efeitos de publicidade e acomodação de elites no mundo acadêmico, tapa-se essa compreensão com montes de teorias sistêmicas europeias, as quais primam pela rejeição da visibilidade efetiva.
         É sintomático que os "estudos culturais", os estudos étnicos, da subalternidade, feministas, etc., que configuram o pós-modernismo teórico e estético não tem sido ventilados ou traduzidos.
             Um estudante universitário pode escolher Linda Hutcheon para sua tese de letras, mas não tem acesso a mais da metade dos títulos que ela mesma analisa no seu "A poética do pós-moderno" - que à luz dos "estudos" já deve estar tendo que ser atualizada em nossa apreciação crítica.
            Não sou marxista nem psicanalítica, mas poderíamos notar que nem mesmo a complementação do marxismo ortodoxo pela teoria da subjetividade lacaniana está hoje acessível nas nossas livrarias - portanto, não é aquilo que poderia se colocar como parâmetro da nossa crítica a partir do nosso autoconhecimento, já que são discursos que versam sobre nós mesmos enquanto "terceiro mundo", "margem", ou "off-center" ("ex - cêntrico") . Pelo que eu soube, o mercado livreiro local está dominado pelo capital misto.

       A perspectiva dos "estudos" não é dogmática, não pretende ditar definições de identidade. O que precisamos é de informação da realidade efetiva em relação aos fenômenos que são estudados, e isso só pode se viabilizar apagando-se a cisão autoritária de sujeito e objeto de saber. Mas de modo nenhum para solver-se a perspectiva da pesquisa em alguma imediatez folclórica.
          E sim de modo que seja a hetereogeneidade da linguagem o que precisa também ser equacionado,deixando de ser o médium do autoritarismo implícito da mentalidade "objetivista" ocidental.
          O descalabro ecológico e a dominação explícita já não permitem que essa mentalidade seja confundida com a priori do desenvolvimento humano real.

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        Informo os títulos dos volumes dos meus dois estudos sobre história social, ciência e política, que estão à disposição do público pelo site da editora Quártica: "Filosofia, ceticismo e religião", trata do mundo antigo. "O pós-moderno" trata da realidade presente.